domingo, 16 de março de 2008

Chennai (Madras)

Aqui estamos chegados a esta metrópole de Chennai, na qual vivem 7 dos cerca de 1 200 milhões de indianos. Como o voo da BA partiu com quase hora e meio de atraso, por congestionamento do tráfego aéreo em Heathrow, chegámos às duas e meia da manhã e deitámo-nos, perto das quatro. Como não viemos para dormir, levantámos às 9 e às 10 horas iniciámos uma visita geral à cidade.
No museu da Basílica de São Tomé, onde só a Odete e a Carol entraram, porque tinha que ser descalço, pode ver-se sinais da presença portuguesa também por esta costa oriental da Índia. Até 1996 Chennai chamava-se Madras, e uma velha Teoria conta que os portugueses, que aqui chegaram no século XVI, chamaram a esta cidade Madre de Deus, o que teria dado Madras.
De resto, Chennai, não fora o seu importante aeroporto intercontinental, não seria destino turístico com interesse. O Forte de São Jorge é o ponto mais visitado e não lhe encontrámos qualquer interesse, para além de ser um marco da presença dos ingleses durante vários séculos na Índia.
Sendo certo que este estado de Tamil Nadu não é tão pobre como os do Centro e Norte, o estado de degradação do ambiente urbano e a visível miséria da pessoas na rua deixa-nos rapidamente entender que estamos longe da Europa e do nível de vida dos países ricos do Norte do Globo. Neste país 25% da população vive com menos de 1 dólar por dia, e o PIB per capita é somente de 2 700 dólares por ano, contra os 21 800 de Portugal. A taxa de mortalidade infantil é de 34,7 por mil (menos de 5 em Portugal), a taxa de natalidade é dupla da nossa (22,7 por mil, contra 10,56). Porém, a esperança de vida à nascença é de 68,5 anos (Portugal 77,8), o que torna as coisas bem melhores do que em muitos países do terceiro mundo.
As boas notícias são que a economia da Índia cresceu à média de 7% nos últimos 10 anos, atingindo 8,5% em 2006 e 2007 (Portugal cresceu 1,8% em 2007). E não é só à custa de industrias de mão-de-obra intensiva, barata, que conseguem este crescimento: a Índia possui uma posição privilegiada nas tecnologias da informação, sendo hoje um grande exportador de software e de trabalhadores desta área, já que possui uma massa enorme de gente com excelente educação universitária e dominando bem o inglês. Esta zona de Chennai em que nos encontramos rivaliza com a cidade de Bengalore, um pouco mais a sul, na quantidade e qualidade de indústrias das TI, disputando-se aqui a designação de Silicon Valley da Índia. Empresas tais como a Dell, Nokia, Motorola, Samsung, Flextronics e Foxconn têm aqui importantes unidades diferenciadas de produção mundial. A indústria automóvel também está aqui instalada em força e representa 30% da produção indiana de veículos e 35% da de componentes para o sector, havendo por aqui fábricas de marcas como Hyundai, Ford, BMW, Mitsubishi, TVS Motors (TVS), Ashok Leyland, Nissan, Renault, TI Cycles of India. Tafe Tractors e Caterpillar.
A produção cinematográfica estão também na linha da frente do desenvolvimento desta região, sendo a zona conhecida como Kollyhood, tal é o volume e importância da produção aqui realizada.
No campo da saúde, algumas das instituições mais conhecidas tais como os Hospitais Apollo, que são o maior grupo prestador de cuidados de saúde da Ásia com 6 000 camas, o Sankara Nethralaya e o Sri Ramavhandra Medical Centre estão bem implantados na zona de Chennai. Aliás é bem visível o seu marketing em grandes outdoors por toda a cidade. Num destes, um hospital, promovendo a sua ortopedia, anuncia uma experiência de 16 000 próteses da anca e 5 000 próteses do joelho. É obra para uma instituição privada! Em Portugal, todos os hospitais devem demorar vários anos a atingir estes números. Aliás, a indústria de prestação de cuidados de saúde para turistas está em alta por aqui e já tem significado na economia local. Na verdade, a Índia têm excelentes escolas médicas, investe muito na formação especializada de médicos nos EUA e no Reino Unido e apresenta hospitais com nível de organização internacional, acreditados pela Joint Comission Internacional dos EUA. Por razões obvias os preços praticados compensam a deslocação…. Bem, mas estamos a falar dum nicho de mercado privado, para uma classe que pode pagar. Esta tarde visitámos rapidamente um grande e recente hospital público de Chennai e o que vimos é de fugir: um edifício imponente e recente, com entradas monumentais, excelentes materiais de construção no interior e no exterior, mas as duas enfermarias que observámos eram do tipo Nighthingale, com várias filas de camas em open space, com equipamento de péssima qualidade, com as enfermeiras sentadas numa mesa central enorme e um segurança fardado em cada uma que deambulava com um pau ameaçador na mão (para pôr em ordem os visitantes?); vimos os familiares sózinhos a conduzir uma maca numa clara transferência interna dum doente; o Pedro viu um familiar literalmente em cima duma cama ajudando à mudança do seu doente da cama para a maca . Enfim, o Estado no seu melhor em toda a parte.
Por causa de todo este baixo nível de vida é que nós hoje almoçámos no melhor restaurante de Chennai por 50 euros as 9 pessoas. Sim não é engano: 50 euros os 9! Para a história fica o nome do dito: Amaravathi. A propósito de comida, para já estamos todos ainda na fase do namoro com a vegetariana e a afrangalhada, com toda a gente a louvar esta cozinha. Prevejo, porém, que daqui a dois dias esteja tudo do avesso, com o pessoal à procura dum bife de vaca. É verdade: já estes animais sagrados na rua, caminhando calmamente no meio do trânsito ou alimentando-se em pontos de depósito de restos de alimentos. Têm uma aparência excelente, com a pele muito bem tratada, ar de bem alimentadas, aspecto pacífico, transpiram calma e parecem apreciar esta liberdade sagrada.
Dá que pensar quando vemos as vacas nesta santa vida e ao lado andam ser humanos, sobretudo mulheres e crianças, a ganhar a vida a retirar do lixo resíduos para reciclagem, sendo explorados por intermediários, que lhes pagam em média menos de 1 euro pelo que recolhem num período de 10 horas de trabalho. Felizmente estão agora no terreno ONG que têm ajudado estas pessoas a organizar-se em cooperativas, elevando desta forma os seus ganhos exponencialmente.
Numa viagem ao fundo da dignidade humana, visitámos uma zona de Chennai, bem no centro da cidade, onde há famílias a viver nas ruas, onde cozinham, dormem e fazem algum negócio para sobreviver. Impressiona aqui a aparente resignação com que as pessoas encaram esta vida, sendo mesmo simpáticas quando as abordamos para fazer fotos e filmagens.
Perto do hospital entrámos também na estação central ferroviária de Chennai e, tratando-se dum domingo ao fim da tarde, tivemos oportunidade de observar uma multidão à medida dum país gigante tentando arranjar lugar nos expressos de longa distância apara regressarem aos seus trabalhos. Eu e o Pedro entrámos numa carruagem de 2.ª classe para ver de perto o cheiro e as condições em que se viaja neste “casta” económica inferior. Cheiro forte a urina, suor e comida, quase só homens e dois andares de assentos, em que o segundo não é verdadeiro, mas o que na nossa terra corresponde àquele suporte superior em que se colocam as bagagens. É verdadeiramente isto, só que um pouco mais largo. Pois, aquilo vai cheio de tipos com as pernas cruzadas naquela posição típica do ioga em que um pé fica por baixo da outra perna. O ar condicionado são ventoinhas de tecto, o que neste clima quente e húmido é muito pouco.
Neste fim de tarde ainda fomos à única praia cá do burgo, que tem vários kms de extensão, que estava cheia duma forma inimaginável para um ocidental, mas com a curiosidade de não se ver uma única pessoa em fato de banho. Todos junto ao mar, mas ninguém a banhar-se como nós o fazemos. E se a água estava boa… talvez 27 ou 28 graus.
Para terminar a observação feminina rápida das mulheres do grupo de que das indianas que vimos até agora nenhuma estava vestida à ocidental. Já sabíamos, mas confirma-se: a tradição ainda é o que era.Espero voltar amanhã de Pondichery.