domingo, 30 de março de 2008

Pimenta, Cravo e Canela - encerramento

Aqui estão as especiarias que deram nome ao blogue, fotografadas na origem, na região do Lago Periyar.

Assim se encerra esta forma de contar e de recordar mais uma experiência das nossas viagens, com as quais buscamos conhecer melhor a terra e a forma de viver doutros povos, ficando-nos a consciência de sermos cidadãos mais conhecedores das carências e desigualdades injustificadas entre pessoas que vivem em locais diferentes do planeta.

Até para o ano, noutro local da aldeia global.


Por ordem: pimenta, cravo e canela (casca do tronco da árvore).

Café, Baunilha, Cacau, Gengibre e Cardamomo





Bombaim por fim

A ida a Bombaim estava prevista quase só como uma escala técnica, para tomarmos o avião de regresso à Europa. Ainda assim aproveitámos um fim de tarde e início de noite e todo um dia inteiro para conhecermos uma cidade que não tem nada de especial para ver. Sendo uma metrópole com dezasseis milhões de almas a viver num espaço que seria razoável para apenas 6 milhões, pode imaginar-se o caos visível no trânsito e na habitação. Por todo o lado são múltiplas as filas de carros e todo o tipo de viaturas, incluindo milhares de táxis amarelos e pretos, dum modelo Fiat Neckar, que existiu há 40 anos na Europa, e que milagrosamente ainda andam, fluindo parados a maior parte do tempo, de nada lhes valendo a clássica, omnipresente e solicitada buzinadela (“sound horn” é o incitamento que se vê escrito na traseira da maior parte dos camiões e rickshaw). Ao lado de prédios altos de aspecto moderno convivem milhares de barracas de madeira e zinco, miseráveis, enquanto ainda há muitas pessoas a dormir na rua, como tivemos oportunidade de ver na nossa viagem de ida para o aeroporto entre as 23 horas e a meia noite. Tivemos oportunidade de visitar a estação central de caminho de ferro, cujo edifício é, a par com o do Supremo Tribunal e o da Universidade, uma das atracções turísticas da cidade, e para além da sua beleza exterior pudemos ver no interior o que é um verdadeiro formigueiro humano a encarreirar de e para as dezenas de composições permanentemente em partida e em chegada. Pudemos ver as conhecidas imagens dos comboios sub urbanos a circular de portas abertas e com as pessoas quase no limite da queda para o exterior. Chegámos mesmo a ver casos de pessoas a viajar em cima do tecto das carruagens. De resto, fomos ver umas grutas interessantíssimas na Ilha Elefanta, à qual se tem acesso numa viagem de uma hora de barco, as quais são escavadas na rocha, com painéis enormes de várias estátuas da deusa Shiva e datam do ano 750.


No regresso de barco a Bombaim tem-se uma vista magnifica da célebre Gateway to Índia, com o conhecido arco de triunfo quase ladeado pelo imponente Hotel Taj Mahal. Ainda visitámos a casa onde viveu Gandi e os jardins suspensos, não dando o tempo para muito mais, tal é a demora nas deslocações no rolho do trânsito.

Na noite da chegada fomos jantar a casa duma amiga do Miguel, jovem senhora indiana, que vive com as suas duas filhas e marido em casa dos pais deste. Fomos muitíssimo bem recebidos em casa desta família tradicional pelas quatro gerações que ali habitam. Na verdade, cada casal recém-constituído vai morar para casa dos pais do marido, alargando-se assim o tamanho desta família com a entrada da nova mulher e dos filhos que advêm do casamento. Bem diferente do que se passa no ocidente…. Dá que pensar como podem gerações tão diferentes viver debaixo do mesmo tecto sem conflitos graves. E logo sogras e noras…. Acreditamos que mais uma vez está aqui presente o espírito paciente e pacífico do povo indiano. Como pessoas cultas que são e boas conhecedoras do ocidente, estes senhores tiveram o cuidado e atenção de nos oferecer um jantar tipicamente indiano, igual ao que fazem quando estão em família, completamente vegetariano e sem álcool. Para além da conversa muito agradável e esclarecedora sobre vários aspectos da vida e da economia da Índia, fomos ainda agraciados com chinelos típicos da região da qual esta família é originária, o Rajastão, confeccionados em pele de camelo, cosidos à mão e extremamente confortáveis. A gafe da noite tinha que ser cometida por mim, pois claro: depois dos momento hilariantes de experimentação dos vários modelos e tamanhos dos chinelo, que eu procurei documentar em fotos, chegou a minha vez de escolher e rapidamente lancei o olhar para um modelo que estava um pouco afastado do local dos outros, mas que mesmo assim eram muito bonitos e me calçavam muito bem; disse: estes são meus!, quando o dono da casa me perguntou: gosta, estão-lhe bem? Então fique com eles porque eu tenho outros e esses estão como novos, porque eu só os usei três dias. E não pude dizer que não, tal foi a simpática insistência do senhor.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Já em Bombaim

Escrevi os dois posts anteriores no portatil, ainda no aeroporto em Goa, que acabei de colocar no ar já aqui no hotel em Bombaim. Vamos ver se amanha ainda disporei de tempo para escrever e colocar fotos sobre a visita desta cidade e sobre a noite magnifica que acabamos de ter em casa duma familia indiana de amigos do Miguel, que nos receberam e ofereceram o jantar. E escrever no portatil com acentos cedilhas e tudo o mais que falta neste teclado horroroso. Nao me posso esquecer de relatar como fiquei com os chinelos do dono da casa :))

Ainda sobre Goa

Anteontem, na tarde da nossa chegada a Goa, depois de assentarmos arraiais no Hotel Cidade de Goa (excelente, busquem no Google), fizemos a primeira visita ao Forte de Aguada e às praias situadas mais a norte. O Forte, imponente e em bom estadão de conservação, foi construído pelos portugueses no século XVI, protegia bem a entrada do rio Mandovi e tinham depósitos enormes para abastecimento de água dos navios que por aqui passavam. As praias (do Norte do rio Mandovi)), muito elogiadas no Lonely Planet, são uma desilusão: maus acessos, lixo por todo o lado, ruas com comércio caótico e desinteressante, edifícios decadentes, apoios de praia miseráveis. Não se entende a popularidade que parecem gozar junto dos nossos amigos mochileiros ingleses.
Ainda visitámos Panjim, que é agora a capital do Estado de Goa, merecendo-nos especial atenção um bairro de traça portuguesa. Do nome das ruas, à designação das lojas e à traça das habitações, tudo aqui cheira a influência portuguesa e não deixa de ser emocionante pensar que um povo tão pequeno em população foi capaz de se espalhar por tanto mundo e criar e deixar raízes.
Doutro ponto de vista, impressiona a dimensão do turismo que há por aqui, muitíssimo superior ao do sul da Índia por onde andámos antes. A qualidade e quantidade da oferta da hotelaria são significativas e os ingleses são reis por aqui. Sabemos que em certas alturas do ano há mesmo voos charter de Londres directos a Goa, designadamente da Monarch Airlines. Percebemos porque nesta manhã de hoje que passámos no nosso hotel. Temperatura de dia à volta dos 33 graus e de 27 à noite, enquanto a água do mar é como caldo, perto dos 30 graus. Como o nosso há vários hotéis com praias privativas, distribuídos pelas várias baías que constituem esta costa a sul da foz do Mandovi.
Se juntarmos à receita do turismo a extracção e exportação de vários minerais ferrosos e ouro, perceberemos porque este é possivelmente o estado mais rico da Índia.

Mais uma vista de olhos sobre a saude


Deformação profissional – mais um olhar sobre a saúde
Como já disse noutro post é manifesta a proliferação de hospitais privados e de seguros de saúde. No meio das centenas de gigantescos outdoors que estragam o horizonte junto das estradas encontramos sistematicamente alguns fazendo promoção dos hospitais e de planos de saúde privados. Num deles, sobre educação escrevia-se: diga-nos qual o seu sonho para o seu filho, que nós fazemo-lo acontecer – A: Astronauta; B:Gestor; C: médico. Pois é, a medicina aqui é uma carreira de sonho e bem remunerada. Como nos dizia um guia, devido às listas de espera e às más condições assistenciais nos hospitais públicos, as clínicas privadas estão em alta. Na verdade, a indústria dos seguros de saúde tem neste momento uma taxa de penetração de 2%, o que significa que uma população superior à de Portugal está coberta por este tipo de assistência. A expectativa de crescimento é de 25% ao ano até 2010, passando depois para 5%. Recentemente o governo indiano, reconhecendo a importância deste tipo de assistência aumentou os benefícios fiscais para os compradores de SS de 10 000 para 15 000 Rupias (cerca de 160 e 240 euros).
Outro assunto que está aqui na berra é a luta das multinacionais farmacêuticas pela manutenção das patentes de mais de 400 medicamentos utilizados na luta contra o cancro. Há algum tempo o governo indiano decretou que as patentes de medicamentos registadas em qualquer país antes de 1995 deixavam de estar protegidas na Índia. Muitos medicamentos nestas condições, ainda hoje em comercialização, mas com algumas alterações, estão a ser aqui produzidos e vendidos como cópias, a preços infinitamente mais baixos do que os originais, considerando os produtores copiadores que as alterações introduzidas desde 1995 pelas multinacionais serão pequenas variações tendo em vista a manutenção das patentes. Recentemente a Roche e a Novartis sofreram o seu primeiro revés legal ao perderem um recurso no Supremo Tribunal da Índia. Por ano aparecem 700 000 novos casos de cancro, morrem 300 000 pessoas com esta doença e estão em tratamento 2,5 milhões. Um negócio e uma despesa de grandes dimensões, consoante os pontos de vista.

PS: A foto que acompanha este texto é dum jardim público de Margão, no estado de Goa, e pretende ilustrar algo que se vê por aqui com alguma frequência sobre o patrocínio de empresas privadas para a manutenção de jardins. Neste caso é um hospital do grupo Apollo.

terça-feira, 25 de março de 2008

Por Goa e Margão

Por Goa e Margão
A manhã de hoje foi dedicada a Margão, que embora não prevista foi uma bela surpresa. Desde a entrada que se nota a presença portuguesa, seja na arquitectura das casas e das igrejas, quer na toponímia das ruas ou no nome dos estabelecimentos comerciais. Espantou-nos como absolutamente ao acaso fomos várias vezes abordados por goeses que quiseram mostrar que ainda falam português. Um deles, uma senhora, médica, na casa dos 60, ainda com um irmão em Portugal mostrou particular prazer em falar connosco. Percorremos o mercado e ruas envoventes, que apresentam um frenesim típico do comércio indiano, mas aqui talvez mais intenso e mais higiénico. Aliás, o estado de conservação das ruas e dos edifícios está muito acima do nível dos restantes estados que visitámos, uma prova de que este é o estado mais rico da Índia.
De tarde percorremos a Velha Goa, que hoje não é mais do que um conjunto de igrejas, algumas das quais de grandes dimensões. Uma delas, a Basílica do Bom Jesus, é classificada como Património da Humanidade, tem um altar enorme em talha dourada, belíssimo, visível de qualquer ponto do interior e que é claramente o centro de atenção do visitante assim que ele entra. De resto dá que pensar por que razão os portugueses gastaram tantos recursos a construir uma quantidade tão grande de igrejas num espaço tão pequeno. Foi emocionante de ver o retrato de todos os governadores e vice-reis portugueses da Índia no museu anexo a uma das basílicas.
Depois escrevo mais que agora estou a ser pressionado para irmos jantar ao Alfama, que é um restaurante aqui do Hotel Cidade de Goa que tem comida portuguesa. Que saudades…. Vamos a ela.

Mais fotos de Cochim, Goa e Margão - parte II






Mais fotos de Cochim, Goa e Margão





Fotos de Cochim e Goa




segunda-feira, 24 de março de 2008

Imagens de Periyar e das montanhas





O Cristianismo no sul da Índia

O Cristianismo no sul da Índia
Algo que impressiona quem faz a travessia deste sul da Índia é a mudança radical da paisagem dos templos hindus, esmagadoramente presentes na costa oriental, para as igrejas católicas omnipresentes na costa oeste, por onde mais andaram os portugueses. O que se terá passado para que esta disseminação bem sucedida do catolicismo no lado ocidental não tenha prosseguido para além das montanhas que dificultam o acesso por terra ao oriente?
Pelo menos na região de Cochim e de Goa dá gosto ver tanta igreja e capela que parecem decalcadas duma qualquer aldeia do nosso Ribatejo ou Alentejo. E não é só arquitectura religiosa. Na verdade, pudemos ver igrejas literalmente a transbordar nas cerimónias da Páscoa e da Semana Santa. Pensando um pouco sobre a forma como toda esta divulgação religiosa poderá ter sido feita numa região tão distante, com uma cultura e línguas tão distintas, ficamos estupefactos com o grande trabalho realizado pelos nossos missionários.

Chegados a Goa com a Kingfisher Airlines

Em Goa com a Kingfisher Airlines
Estamos em Goa, onde chegámos hoje cerca das 13 horas vindos de Cochim, numa aventura de viagem em avião a hélice da companhia Kingfisher. Efectuámos duas escalas sem sair do avião e por cada vez que levantámos voo deram-nos uma esferográfica com o logo da companhia, um sumo e uma refeição a última das quais foi quente e serviu-nos de almoço, algo que já quase não se vê nas companhias europeias em voos de curta distancia. Esta companhia é mesmo de primeiríssima qualidade: primeiro tem bagageiros à nossa espera na entrada do aeroporto, fardados, que nos abordaram pedindo o documento da reserva e vendo que íamos na sua companhia, informaram-nos que o voo iria partir à hora e que nos tratariam de tudo a partir daquele momento. Assim foi: tiraram as malas do autocarro, despacharam-nas, fizeram todo o processamento do check-in e deram-nos o cartão de embarque sem estarmos em qualquer fila. À chegada a Goa, no tapete de recolha das malas a mesma cena, mas ao contrário. Estupendo! Viva a Kingfisher. Ah, mas há mais: o espaço entre bancos dentro do avião é enorme, equivalente a uma business de avião de médio curso europeu.
Só mais uma curiosidade: o dono da companhia, que é um magnate da cerveja, que tem a mesma marca Kingfisher, que aliás temos bebido sempre e é boa, aparece a falar nos monitores de vídeo de bordo a dar-nos as boas vindas, e é uma imitação clara do célebre dono da Virgin inglesa. Com cabelo comprido e o mesmo ar malandreco de playboy e tudo! Esta companhia vai certamente ser algo grande: ou um estoiro ou um sucesso.

Um olhar sobre o comércio das especiarias da Índia

Para forçar os produtores locais a vender-nos as especiarias, era preciso pagá-las, em moeda de ouro ou prata, ou em produtos europeus que eram raros e muito apreciados na Índia: cobre, chumbo, azougue e alguns tecidos (veludos de Génova, escarlata de Florença, panos de Londres, linhos da Holanda, etc.).Porque Portugal não produzia nenhum destes produtos, tudo tinha de ser importado.Portugal poderia ter recursos para organizar as expedições, construir as fortificações e fazer a guerra, mas não dispunha dos enormes capitais circulantes necessários ao investimento na aquisição dos produtos europeus necessários para comprar as especiarias.Tinha, por isso, que comprar a crédito, pagando com o produto do carregamento, quando a armada regressasse. Para o efeito mantínhamos em Antuérpia uma feitoria, que fazia as compras e tratava das relações comerciais de Portugal com todo o Norte da Europa.Ora, o crédito externo era então muito caro, porque o dinheiro era escasso e o risco grande: a taxa anual era de 25%.Por conseguinte, também esta condição não se encontrava à partida preenchida e os elevados juros a pagar ao estrangeiro contribuirão decisivamente para a derrocada do nosso comércio com o Oriente, como iremos ver. Nos primeiros 15 a 20 anos após a chegada de Vasco da Gama, os negócios da Índia enriqueceram muita gente, nomeadamente a Coroa, que tinha o monopólio do comércio e os grandes senhores que gravitavam à volta do Rei, na mira de um cargo na administração pública, de preferência na Índia, "onde se podiam governar" mais à vontade.Constroem-se palácios, monumentos e igrejas por toda a parte, cresce o número de cortesãos, o Rei rodeia-se de um luxo asiático e os nobres enriquecidos seguem-lhe o exemplo. As importações passaram a incluir não só o que se mandava para a Índia, mas também o que ficava em Lisboa para satisfazer o consumo do Rei e dos grandes fidalgos, bem como armas, cereais (o país despovoava-se na aventura marítima), navios e todos os aprestos para a construção naval. Com a intensificação do comércio das especiarias e o aumento do consumo interno, as importações subiam e a dívida externa também. Não admira, pois, que em 1524, decorridos apenas 25 anos sobre a 1ª viagem, já se devessem ao estrangeiro 3 milhões de cruzados, o que correspondia quase a 3 anos de carregamento.As armadas saíam do Tejo por alturas da Páscoa, chegavam à Índia, descarregavam a mercadoria vinda da Flandres e atulhavam-se com as especiarias que entretanto os feitores portugueses tinham conseguido comprar. O valor médio da pimenta posta a bordo era de cerca de 3 cruzados o quintal (50,4 kg); com as despesas de viagem, os gastos de administração na Índia e em Lisboa, o frete marítimo e as perdas de navios, calcula-se que, posta no Tejo, ficasse a 17 cruzados o quintal. Era depois vendida por grosso na Casa da Índia por 33 cruzados. O volume do comércio era enorme: a média andava pelos 40.000 quintais, ou seja, pelas 2.000 toneladas /ano.Pois nem assim era possível satisfazer o serviço da dívida externa e as primeiras obrigações do tesouro são emitidas em 1528, à taxa de 6,25%; com esse dinheiro se pagavam os juros da dívida ao estrangeiro.
Entretanto, pela pressão da procura, subiam os preços (dos produtos importados) em Antuérpia.Ao contrário, a enorme quantidade de especiaria oferecida no mercado europeu, mais ainda quando as cidades italianas iam gradualmente reconstruindo os seus comércios, fazia descer os preços daquela.Em breve a Europa passou a poder escolher entre a pimenta da Itália e a pimenta de Lisboa, numa guerra comercial com os italianos em que estes argumentavam que a sua pimenta era de qualidade superior, o que não deixava de ser verdade em muitos casos: mal embalada, a pimenta deteriorava-se nos porões dos navios.

As dificuldades para com os credores externos são cada vez maiores e o recurso aos empréstimos internos intensifica-se de tal maneira que os capitais privados começam a perder a confiança no Estado e os nobres a investir em propriedades agrárias.A política de perseguição aos judeus – que começou com a instalação do Santo Ofício pelo piedoso D. João III em 1536 – em especial o confisco das fortunas dos condenados, cria novas dificuldades, porque as famílias mais ricas exportam as suas fortunas, receosas da sua apreensão em caso de denúncia.Com a abertura das antigas rotas terrestres, é a própria exploração que se torna deficitária, com a receita corrente a não dar para a despesa corrente, fenómeno a que não serão também estranhos factores como a pirataria e uma administração macrocéfala e corrupta. Em meados do século XVI, a dívida interna era 4 vezes superior à dívida externa; apesar disso, os seus juros eram de 100.000 cruzados, ao passo que os da dívida externa eram de 400.000 cruzados. Toda a poupança interna saía do país para satisfazer o serviço da dívida ao estrangeiro. A decadência do comércio oriental acentua-se e em 1560 – impossibilitada de pagar os juros da dívida externa – a Casa da Índia abriu bancarrota.Em 1570, já no reinado de D. Sebastião, o Estado abandonou o regime de monopólio do comércio oriental, passando a arrendá-lo a grupos de mercadores: tornara-se impossível, com a receita do Estado, organizar as armadas anuais.
Já então o Estado se manifestava um gestor impossível. A lição não foi aprendida e o erro repetir-se-ia mais vezes até aos nossos dias. Ainda agora, aqui, tão longe, nos chega a notícia de que em Portugal o Estado vai passar a gerir o Hospital Amadora Sintra.

Em Cochim na rota dos nossos navegantes

Cochim – na rota dos nossos navegantes
Depois de deixarmos o barco, viajámos cerca de uma hora Cochim, onde ficámos magnificamente instalados no Hotel Hilton. Passámos a tarde em visitas na aras de Forte Cochim, que é a parte antiga da cidade que contem as relíquias históricas que nos trouxeram aqui. Mas como era Domingo de Páscoa, não nos pudemos emocionar vendo no interior da igreja de São Francisco o local onde Vasco da Gama esteve sepultado 14 anos antes de ser transladado para Portugal, nem o museu indo-português, pois que ambos estavam fechados. Bem ao contrário, o palácio dos holandeses, que por acaso foi construído pelos nossos antepassados em 1555, e a Sinagoga estavam bem abertos, recordando em letras bem negras que os judeus, que já aqui moravam e comerciavam antes da chegada dos portugueses, foram por estes massacrados e expulsos. Ficamos tristes ao vermos que a casa onde viveu Vasco da Gama não está conservada e aberta ao público como museu, mesmo que para isso fosse necessário financiamento do Governo português ou da Gulbenkian, a qual, aliás, já aqui patrocinou várias recuperações. Valeu-nos a vista do rio por onde Vasco da Gama subiu e as margens em que desembarcou, nas quais ainda pudemos ver casas de traça portuguesa. Há aqui várias dezenas de redes de pesca chinesas, que, dizem alguns, foram trazidas pelos portugueses, e são um elogio ao génio humano na sua luta pela conquista do alimento. E além de tudo são fonte de fotos belíssimas em qualquer atura do dia. Fechámos o dia em Cochim com um jantar quase português, comendo um peixe de mar parecido com o robalo, com 4,6 kgs, e 3kgs de camarão tigre, que comprámos a pescadores locais e mandámos cozinhar num restaurante à borda do rio. De gritos! E por… cerca de 100 euros para 9 pessoas.

Nas backwaters

Nas backwaters do estado de Kerala
A chuva que nos tem perseguido desde há quatro dias foi ainda mais odiada aqui onde o cenário, mesmo assim muito belo, teria sido outro bem melhor se navegássemos em dias de sol. O barco-casa superou as nossas expectativas quanto a conforto, embora as refeições fossem mais próprias da alimentação daqueles indianos muuuuito magrinhos que temos visto por aí. Nós, como mais umas largas dezenas de turistas, a maioria dos quais ocidentais, nem demos conta da passagem da tarde navegando por entre margens, ora mais estreitas ora mais afastadas, mas sempre cobertas de coqueiros, palmeiras, mangueiras e outras árvores tropicais, no meio das quais iam aparecendo habitações das populações locais que vivem da pesca ou do cultivo dos campos de arroz que estão para além das margens. Esta gente vive verdadeiramente em comunhão com a água, nela se banhando na sua higiene diária, lavando a roupa e usando-a como estrada única para acesso ao mundo exterior. Para além dos barcos de transporte de carga, raros, e das pequenas pirogas de pesca, numerosas, circulam aqui uma espécie de barcos de carreira de passageiros que com muita frequência vão ligando várias zonas habitacionais ribeirinhas com povoados maiores. É toda esta vida e azáfama que juntas com o cenário idílico nos fizeram passar uma tarde das que ficam na memória para sempre.
As backwaters são um conjunto de canais e lagos de água salobra ligados entre si e ao mar, com cerca de 900 Kms de comprimento, situados ao sul de Cochim, que desde há alguns anos têm sido aproveitados para percursos turísticos em barcos casa, que nalguns locais e horários fazem fila para mudar de direcção. Nós partimos e regressámos a Alleppey, mas há quem vá até Kumarokon ou viagem por vários dias em barcos que podem ter um ou quatro quartos de casal com casa de banho privativa e cozinheiro a bordo.
Vir ao sul da Índia e não fazer um cruzeiro de 24 horas é quase como ir a Roma….

Imagens atrasadas já enviadas de Goa com boa internete parte II

Madurai, casa de GhandiMadurai, Templo Hindu
Madurai, mercado agrícola
Idem