A ida a Bombaim estava prevista quase só como uma escala técnica, para tomarmos o avião de regresso à Europa. Ainda assim aproveitámos um fim de tarde e início de noite e todo um dia inteiro para conhecermos uma cidade que não tem nada de especial para ver. Sendo uma metrópole com dezasseis milhões de almas a viver num espaço que seria razoável para apenas 6 milhões, pode imaginar-se o caos visível no trânsito e na habitação. Por todo o lado são múltiplas as filas de carros e todo o tipo de viaturas, incluindo milhares de táxis amarelos e pretos, dum modelo Fiat Neckar, que existiu há 40 anos na Europa, e que milagrosamente ainda andam, fluindo parados a maior parte do tempo, de nada lhes valendo a clássica, omnipresente e solicitada buzinadela (“sound horn” é o incitamento que se vê escrito na traseira da maior parte dos camiões e rickshaw). Ao lado de prédios altos de aspecto moderno convivem milhares de barracas de madeira e zinco, miseráveis, enquanto ainda há muitas pessoas a dormir na rua, como tivemos oportunidade de ver na nossa viagem de ida para o aeroporto entre as 23 horas e a meia noite. Tivemos oportunidade de visitar a estação central de caminho de ferro, cujo edifício é, a par com o do Supremo Tribunal e o da Universidade,
uma das atracções turísticas da cidade, e para além da sua beleza exterior pudemos ver no interior o que é um verdadeiro formigueiro humano a encarreirar de e para as dezenas de composições permanentemente em partida e
em chegada. Pudemos ver as conhecidas imagens dos comboios sub urbanos a circular de portas abertas e com as pessoas quase no limite da queda para o exterior. Chegámos mesmo a ver casos de pessoas a viajar em cima do tecto das carruagens. De resto, fomos ver umas grutas interessantíssimas na Ilha Elefanta, à qual se tem acesso numa viagem de uma hora de barco, as quais são escavadas na rocha, com painéis enormes de várias estátuas da deusa Shiva e datam do ano 750.

No regresso de barco a Bombaim tem-se uma vista magnifica da célebre Gateway to Índia, com o conhecido arco de triunfo quase ladeado pelo imponente Hotel Taj Mahal.
Ainda visitámos a casa onde viveu Gandi e os jardins suspensos, não dando o tempo para muito mais, tal é a demora nas deslocações no rolho do trânsito.
Na noite da chegada fomos jantar a casa duma amiga do Miguel, jovem senhora indiana, que vive com as suas duas filhas e marido em casa dos pais deste.
Fomos muitíssimo bem recebidos em casa desta família tradicional pelas quatro gerações que ali habitam. Na verdade, cada casal recém-constituído vai morar para casa dos pais do marido, alargando-se assim o tamanho desta família com a entrada da nova mulher e dos filhos que advêm do casamento. Bem diferente do que se passa no ocidente…. Dá que pensar como podem gerações tão diferentes viver debaixo do mesmo tecto sem conflitos graves. E logo sogras e noras…. Acreditamos que mais uma vez está aqui presente o espírito paciente e pacífico do povo indiano. Como pessoas cultas que são e boas conhecedoras do ocidente, estes senhores tiveram o cuidado e atenção de nos oferecer um jantar tipicamente indiano, igual ao que fazem quando estão em família, completamente vegetariano e sem álcool.
Para além da conversa muito agradável e esclarecedora sobre vários aspectos da vida e da economia da Índia, fomos ainda agraciados com chinelos típicos da região da qual esta família é originária, o Rajastão, confeccionados em pele de camelo, cosidos à mão e extremamente confortáveis. A gafe da noite tinha que ser cometida por mim, pois claro: depois dos momento hilariantes de experimentação dos vários modelos e tamanhos dos chinelo, que eu procurei documentar em fotos, chegou a minha vez de escolher e rapidamente lancei o olhar para um modelo que estava um pouco afastado do local dos outros, mas que mesmo assim eram muito bonitos e me calçavam muito bem; disse: estes são meus!, quando o dono da casa me perguntou: gosta, estão-lhe bem? Então fique com eles porque eu tenho outros e esses estão como novos, porque eu só os usei três dias. E não pude dizer que não, tal foi a simpática insistência do senhor.