Para forçar os produtores locais a vender-nos as especiarias, era preciso pagá-las, em moeda de ouro ou prata, ou em produtos europeus que eram raros e muito apreciados na Índia: cobre, chumbo, azougue e alguns tecidos (veludos de Génova, escarlata de Florença, panos de Londres, linhos da Holanda, etc.).Porque Portugal não produzia nenhum destes produtos, tudo tinha de ser importado.Portugal poderia ter recursos para organizar as expedições, construir as fortificações e fazer a guerra, mas não dispunha dos enormes capitais circulantes necessários ao investimento na aquisição dos produtos europeus necessários para comprar as especiarias.Tinha, por isso, que comprar a crédito, pagando com o produto do carregamento, quando a armada regressasse. Para o efeito mantínhamos em Antuérpia uma feitoria, que fazia as compras e tratava das relações comerciais de Portugal com todo o Norte da Europa.Ora, o crédito externo era então muito caro, porque o dinheiro era escasso e o risco grande: a taxa anual era de 25%.Por conseguinte, também esta condição não se encontrava à partida preenchida e os elevados juros a pagar ao estrangeiro contribuirão decisivamente para a derrocada do nosso comércio com o Oriente, como iremos ver. Nos primeiros 15 a 20 anos após a chegada de Vasco da Gama, os negócios da Índia enriqueceram muita gente, nomeadamente a Coroa, que tinha o monopólio do comércio e os grandes senhores que gravitavam à volta do Rei, na mira de um cargo na administração pública, de preferência na Índia, "onde se podiam governar" mais à vontade.Constroem-se palácios, monumentos e igrejas por toda a parte, cresce o número de cortesãos, o Rei rodeia-se de um luxo asiático e os nobres enriquecidos seguem-lhe o exemplo. As importações passaram a incluir não só o que se mandava para a Índia, mas também o que ficava em Lisboa para satisfazer o consumo do Rei e dos grandes fidalgos, bem como armas, cereais (o país despovoava-se na aventura marítima), navios e todos os aprestos para a construção naval. Com a intensificação do comércio das especiarias e o aumento do consumo interno, as importações subiam e a dívida externa também. Não admira, pois, que em 1524, decorridos apenas 25 anos sobre a 1ª viagem, já se devessem ao estrangeiro 3 milhões de cruzados, o que correspondia quase a 3 anos de carregamento.As armadas saíam do Tejo por alturas da Páscoa, chegavam à Índia, descarregavam a mercadoria vinda da Flandres e atulhavam-se com as especiarias que entretanto os feitores portugueses tinham conseguido comprar. O valor médio da pimenta posta a bordo era de cerca de 3 cruzados o quintal (50,4 kg); com as despesas de viagem, os gastos de administração na Índia e em Lisboa, o frete marítimo e as perdas de navios, calcula-se que, posta no Tejo, ficasse a 17 cruzados o quintal. Era depois vendida por grosso na Casa da Índia por 33 cruzados. O volume do comércio era enorme: a média andava pelos 40.000 quintais, ou seja, pelas 2.000 toneladas /ano.Pois nem assim era possível satisfazer o serviço da dívida externa e as primeiras obrigações do tesouro são emitidas em 1528, à taxa de 6,25%; com esse dinheiro se pagavam os juros da dívida ao estrangeiro.
Entretanto, pela pressão da procura, subiam os preços (dos produtos importados) em Antuérpia.Ao contrário, a enorme quantidade de especiaria oferecida no mercado europeu, mais ainda quando as cidades italianas iam gradualmente reconstruindo os seus comércios, fazia descer os preços daquela.Em breve a Europa passou a poder escolher entre a pimenta da Itália e a pimenta de Lisboa, numa guerra comercial com os italianos em que estes argumentavam que a sua pimenta era de qualidade superior, o que não deixava de ser verdade em muitos casos: mal embalada, a pimenta deteriorava-se nos porões dos navios.
As dificuldades para com os credores externos são cada vez maiores e o recurso aos empréstimos internos intensifica-se de tal maneira que os capitais privados começam a perder a confiança no Estado e os nobres a investir em propriedades agrárias.A política de perseguição aos judeus – que começou com a instalação do Santo Ofício pelo piedoso D. João III em 1536 – em especial o confisco das fortunas dos condenados, cria novas dificuldades, porque as famílias mais ricas exportam as suas fortunas, receosas da sua apreensão em caso de denúncia.Com a abertura das antigas rotas terrestres, é a própria exploração que se torna deficitária, com a receita corrente a não dar para a despesa corrente, fenómeno a que não serão também estranhos factores como a pirataria e uma administração macrocéfala e corrupta. Em meados do século XVI, a dívida interna era 4 vezes superior à dívida externa; apesar disso, os seus juros eram de 100.000 cruzados, ao passo que os da dívida externa eram de 400.000 cruzados. Toda a poupança interna saía do país para satisfazer o serviço da dívida ao estrangeiro. A decadência do comércio oriental acentua-se e em 1560 – impossibilitada de pagar os juros da dívida externa – a Casa da Índia abriu bancarrota.Em 1570, já no reinado de D. Sebastião, o Estado abandonou o regime de monopólio do comércio oriental, passando a arrendá-lo a grupos de mercadores: tornara-se impossível, com a receita do Estado, organizar as armadas anuais.
Já então o Estado se manifestava um gestor impossível. A lição não foi aprendida e o erro repetir-se-ia mais vezes até aos nossos dias. Ainda agora, aqui, tão longe, nos chega a notícia de que em Portugal o Estado vai passar a gerir o Hospital Amadora Sintra.